Ponto de Cultura Sawubona e Comitê de Cultura de SC celebram a Semana do Migrante com formações e arte na Capital
Em meio a debates urgentes sobre a garantia de direitos, combate à xenofobia e barreiras burocráticas no acesso a políticas públicas por populações migrantes e indígenas, o evento na Galeria Lama marcou o início de um ciclo formativo que reafirma: cultura não é apenas entretenimento, cultura é direito constitucional
Sobre o evento
No marco da Semana do Migrante e do Refugiado, o Ponto de Cultura Sawubona e o Comitê de Cultura do Estado de Santa Catarina realizaram, no último domingo (14), uma ação especial na Galeria Lama, no Centro Leste de Florianópolis. Sob o lema "Cultura é Direito", o encontro celebrou o retorno da Festa da Tribo 2026 ao espaço, unindo capacitação, diálogo e manifestações artísticas para impulsionar a inclusão e democratizar o acesso à cena cultural local.
A programação começou às 14h com a abertura da multiartista e slamer Saturno. Em uma performance poética potente, a artista denunciou as realidades complexas enfrentadas por migrantes ao chegarem a Florianópolis, apontando problemas estruturais como o racismo, o classismo, a xenofobia e as crises ambientais da cidade. O evento também abrigou uma feira de economia criativa, valorizando a produção de criadores locais.
Diálogo, Demandas Estruturais e Articulação Institucional
Das 15h às 16h, a roda de conversa "Olhar-nos como Humanos" promoveu um debate profundo sobre racismo, segregação e integração profissional. O espaço reuniu artistas de diversas nacionalidades — como Venezuela, Chile e Argentina —, lideranças indígenas das etnias Mapuche e Xokleng, além de artesãos e produtores locais.
O encontro contou com uma importante articulação e presença institucional. O Ministério da Cultura marcou presença por meio do escritório do MinC no estado, representado por Elenira Vilela e Carmen Evangelho. O Conselho Municipal de Políticas Culturais de Florianópolis também esteve representado no debate por Taz Assunção, reforçando a importância do diálogo entre a sociedade civil e os órgãos de gestão cultural.
A mediação foi conduzida pela coordenação geral do Ponto de Cultura Sawubona, que pautou as principais dificuldades enfrentadas pelo setor:
- Falta de interlocução: A ausência de canais de diálogo consolidados com as instituições públicas estatais de cultura.
- Barreiras burocráticas: Exigências documentais excludentes (como RG ou título de eleitor) para a inscrição de migrantes em editais e o desconhecimento dos órgãos públicos sobre os mecanismos legais de acolhimento a essa população.
- Infraestrutura: A escassez de acesso a equipamentos culturais públicos.
Durante a mesa, reforçou-se que o evento consolida uma cobrança pública por políticas efetivas para a população migrante, que já ultrapassa 118 mil pessoas em Santa Catarina — consolidando o estado como o terceiro que mais recebe fluxos migratórios no país. Foi lembrado que a Constituição Federal assegura a estrangeiros residentes os mesmos direitos fundamentais garantidos aos brasileiros. Complementando as demandas, o ativista Grendel Hernandez defendeu a urgência de espaços permanentes de difusão das culturas do mundo como ferramenta indispensável no combate à xenofobia.
Ciclo Formativo e Inclusão
Dando sequência à agenda pedagógica, duas atividades deram início às frentes de capacitação técnica:
Formação I - "Cultura é Direito": Conduzida por Catarina Kinas, integrante do Comitê de Cultura de Santa Catarina (@comitedecultura.sc), a imersão buscou desmistificar o funcionamento de editais de fomento e ferramentas de profissionalização artística no Brasil. Avaliado como "muito potente", o encontro abre um ciclo de oficinas que ocorrerão nos próximos dias e cujas datas serão divulgadas pelas redes do Comitê e do Ponto de Cultura (@eu.sawubona).
Formação II - "Diversidade, Pertencimento e Inclusão" (17h às 18h): Ministrada por Ana Roman (@ana_roman_), fundadora da Tríade Comunicação Acessível (@triadecomunicacaoacessivel). Museóloga (UFSC), comunicadora social (UNISUL) e especialista na área, Ana compartilhou sua experiência na coordenação de acessibilidade de grandes festivais e instituições para debater práticas de acolhimento e neurodiversidade em projetos culturais.
Celebração Coletiva e Intercâmbio Musical
O encerramento transformou a Galeria Lama em um verdadeiro palco de intercâmbio de saberes, ancestralidade e altíssimo nível técnico, reunindo instrumentistas de profunda bagagem artística.
A programação musical foi aberta pela apresentação de Inchiw Duo, duo formado por Romina Blanco e Isaías Soto, da etnia Mapuche (Argentina), que trouxeram a força da música indígena originária.
Na sequência, apresentou-se a agrupação Alimishky. Composta por músicos e pesquisadores de sonoridades latinas vindos da Argentina, Chile, Venezuela e Brasil, o grupo contagiou o público com um vibrante Carnaval Andino. Um dos momentos mais marcantes do show foi a homenagem a Totó La Momposina — a lendária cantora e maior embaixadora da cumbia e do folclore caribenho colombiano, falecida recentemente em maio de 2026 aos 85 anos. O tributo transbordou latinidade e colocou o público para dançar ao som de ritmos ancestrais raramente ouvidos na cena da capital catarinense.
Para fechar o domingo, o palco recebeu o Afro-Jazz moçambicano do Regino Matimbe Group (@reginomatimbe). Em um projeto sofisticado que reconecta as raízes de Moçambique à linguagem do jazz contemporâneo, o grupo entregou uma execução impecável. O virtuosismo, a precisão rítmica e a profunda expertise de cada um dos integrantes coroaram o evento com excelência instrumental, mostrando que a diversidade técnica caminha de mãos dadas com a identidade cultural.
Com entrada inteiramente gratuita, a ação reafirmou que o conhecimento e a arte são caminhos indissociáveis para a transformação social. Afinal, a tribo somos todos nós.
Programação
A programação ainda não foi definida. Em breve publicaremos os detalhes das atividades.
Galeria do evento
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